ITAJAÍ, UM ZAGUEIRO VIRIL E DETERMINADO

Por Walmir Rosário*

Seleção de Itabuna – Luiz Carlos, Santinho, Itajaí, Régis, Déri e Ronaldo; Neném, Valdemir Chicão, Bel, Danielzão e Evaristo

Um zagueiro vigoroso e que cumpria fielmente a decisão dos treinadores em não deixar o atacante fazer firulas na grande área. Assim pode ser definido José Itajaí Andrade Teixeira, até hoje considerado uma referência no futebol de Itabuna. Assim que iniciou sua carreira no quadro aspirante do Janízaros, em 1958, teve que se transferir para Ilhéus, onde foi estudar. Na vizinha cidade, atuou no Vitória e na Seleção de Ilhéus até 1962, ano em que voltou a Itabuna, para o Janízaros, convencidos por Manoel Leal (funcionário da Sulba), Emetério Moreira, Gerson Souza e Zelito Fontes.

Nos anos 63 e 64 foi campeão pelo Janízaros e, por pouco não ganhou o tri, perdido para o Fluminense nos pontos. Ganhou a primeira partida por 1X0, no campo, e perdendo no tribunal, por ter atuado com um jogador irregular. Para Itajaí, jogar futebol era gostoso e os bons jogadores eram reconhecidos. Como dizia Itajaí, Itabuna era uma cidade pequena e a disputa acirrada, principalmente entre o Flamengo, Grêmio, Fluminense, Janízaros, Itabuna, Corinthians, Botafogo e Bahia. Muito do que ele conseguiu foi através do futebol, a exemplo dos amigos, sendo reconhecido em toda a região.

Itajaí ressalta a diferença entre jogar naquela época e agora, principalmente porque não havia treinamento tático e preparo físico dentro de moldes científicos. Ele acordava às 5 da manhã, corria até as 7, na praça Olinto Leone. Quando tinha treino tático no Campo da Desportiva, treinavam das 6 às 7 horas. Mas considera que não era nada analisado e o treinador apenas pedia para que jogassem para ganhar. Itajaí acrescenta que o futebol de antes era jogado com garra, diferente de hoje, uma academia com toda a infraestrutura e profissionais de várias áreas, como nutricionistas, preparadores, psicólogos, embora não existam os craques de antigamente.

Nos anos 60 e 70 as preleções eram feitas pelos treinadores como o objetivo de apenas incentivar os jogadores. Segundo Itajaí, na Seleção de Itabuna, o treinador Gil Nery começava falando para o goleiro Luiz Carlos: “Bola na pequena área é sua”, e ia em frente: “O lateral-direito não pode deixar o adversário driblar por dentro. Itajaí, não deixe a bola passar, mate a jogada antes dela entrar na grande área. Tombinho e Carlos Riela, vocês já sabem o que fazer e, Zé Reis, chute pra frente”, lembra.

Com o passar do tempo, o zagueiro Itajaí cita como exemplo de modernização do futebol em Itabuna os treinadores Negreiros, Tombinho (o mais velho) e Ivo Hoffman, pioneiros na arte de trabalhar taticamente com os jogadores, para dar um condicionamento físico melhor. Nessa época, e com o resultado desse treinamento, os atletas passaram a correr mais, os laterais começaram a subir para o ataque e cruzar, os jogadores do meio de campo se revezavam, passaram a ensaiar cobranças e defesas de faltas nos coletivos, além de treinamento específico para goleiros.

No intervalo do jogo tomavam água, chupavam laranja e voltavam com o mesmo espírito de luta. Era muito comum terminar o primeiro tempo perdendo por 4X0 e, no segundo tempo, empatar de 4X4 e até ganhar o jogo. Como relata Itajaí, a máxima era jogar com a bola no e não suspender a bola. Para isso, tinham jogadores a exemplo de Jonga Preto, Santinho, Florizel, Tombinho e Fernando Riela. Com um time desse não tinha pra ninguém”, relembra Itajaí.

Seleção de Ilhéus – Bita, Americano, Carlinhos Pirata, Arnaldo Badaró, Itajaí, Boinha; Pingo, Vilson Longo, Mourão, Esquerdinha e Luiz Roberto

Jogou nas duas seleções – Para Itajaí, a região cacaueira sempre foi um verdadeiro celeiro de craques e ele cita como exemplos Juca Alfaiate, Carrapeta, Léo Briglia, Nandinho (tio de Santinho), que chegou a ser convocado para a Seleção Brasileira. Ele ainda lembra o Guarani, de Salvador, que veio a Itabuna e levou os 11 jogadores do time da Associação para jogar na sua equipe e foi campeão baiano. Entre esses craques estão Edson, que jogou no América do Rio; Arlindo, no Botafogo; Sílvio Mário, no Galícia; Armandinho e Esquerdinha (Eduardo Santos, secretário de Esporte do Estado da Bahia); e Wilson Longo, a quem considera um craque completo. Em sua opinião, o maior craque que já viu jogar foi Léo Briglia, na sua opinião melhor do que Pelé.

Itajaí chegou a jogar nas seleções de Ilhéus e Itabuna e sabe que não era fácil conviver com a rivalidade entre as torcidas das duas cidades. Segundo ele, dentro de campo era uma verdadeira guerra, uns xingando os outros e não raro alguns eram expulsos. Quando ele jogava em Ilhéus sabia os torcedores ofereciam presentes, inclusive caixas de cerveja incentivando os jogadores de Itabuna a quebrarem a sua perna, mas a cordialidade entre os jogadores era muito grande e eles não aceitavam.

Itajaí jogou na Seleção de Itabuna de 1964 a 66, quando conquistou o, seguidamente, o tetra, penta e hexacampeonato de amadores da Bahia, nas cidades de Santo Amaro, Feira de Santana e Alagoinhas, respectivamente. E ele diz que na seleção era bom demais jogar, porque todos tinham amor à camisa azul e branca, considerada como se fosse a da Seleção Brasileira. Os jogos eram acompanhados por toda a população.

Naquela época, a empolgação da torcida era total e, segundo Itajaí, os torcedores tinham prazer em recompensar craques como Santinho, Fernando Riela, Tombinho, Carlos Riela, dentre outros, que tinham capacidade de definir uma partida numa só jogada. Mesmo sendo amadores, os atletas daquela época jogavam contra qualquer time do Rio de Janeiro e São Paulo e mostravam o seu potencial. Tanto era assim, que nos bons tempos, América e Vasco já perderam em Itabuna. Os itabunenses jogavam sem maiores compromissos, pois os grandes craques eram os visitantes, o que eles consideravam uma brincadeira. Provocavam os jogadores adversários, mas como eram jogos amistosos, os craques do Rio e São Paulo não precisavam se esforçar tanto.

E convites para participar de grandes equipes nunca faltaram aos jogadores de Itabuna e Ilhéus, inclusive para Itajaí, que, por trabalhar em banco, nunca quis se profissionalizar. Porém, em 1966, aceitou participar da primeira equipe do Itabuna Esporte Clube, já profissional, por se tratar de ser o clube de sua cidade. E aí continuou a rivalidade com a vizinha Ilhéus, que profissionalizou o Colo Colo, o Vitória e o Flamengo. Todos os jogadores que formaram as equipes eram oriundos dos times amadores e, mesmo sem experiência, chegaram a brilhar no campeonato. Para Itajaí, o declínio dessas equipes teve como motivo o fim de carreira dos jogadores da casa e a substituição por atletas do Rio de Janeiro e São Paulo a peso de ouro.

O fim da carreira profissional de Itajaí teve como motivo as atividades profissionais de bancário, quando foi indicado gerente da agência de Eunápolis, pelo Banco de Crédito da Bahia. Ao mudar de cidade, também deixou de jogar futebol. Mas ele não esquece que foi com o futebol que conseguiu o emprego de bancário, e como não jogaria o resto da vida, resolveu parar e continuar no banco. Para ele, infelizmente, muitos dos jogadores do seu tempo não conseguiram jogar no Estádio Luiz Viana Filho, um dos mais modernos daquela época.

*Radialista, jornalista e advogado

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