OS DOIS LADOS DA NOTÍCIA

Walmir Rosário*

O bom jornalismo recomenda que qualquer texto seja escrito de forma direta e positiva, evitando-se a utilização de frases na ordem negativa. É uma mera formalidade que torna o texto mais agradável e de fácil compreensão para o leitor. Disto não resta dúvida, entretanto, nem sempre parece possível quando o assunto abordado é a política, o dia a dia da Administração Pública brasileira.

Até por uma questão de obedecer à cronologia dos acontecimentos a serem narrados, nem sempre é possível obedecer aos manuais de teoria e estilo jornalístico. Na maioria das vezes, mesmo querendo, se torna impossível ao redator de uma reportagem ou artigo (principalmente neste) dar a sequência normal na ordem afirmativa.

De início, de logo vou avisando que neste artigo as assertivas acima não fogem à regra, haja vista ser o comentário deste artigo uma cobrança às promessas nem sempre cumpridas por nossas autoridades que ocupam cargos no Poder Executivo. É que eles gostam de seguir à risca a máxima: “orçamento é uma mera peça de ficção, elaborada para ser descumprido”.

Todos os dias somos surpreendidos pelos anúncios do Governo Federal, nos quais são liberados recursos para a solução de todos os problemas brasileiros. Com uma simples canetada federal, prometem (o presidente, seus ministros e liderados) exterminar com a seca e a fome no Nordeste, as enchentes em São Paulo, a violência no Rio de Janeiro, e concluir a reforma agrária.

Discursos inflamados, palmas batidas, vasta repercussão no noticiário da mídia em todas as suas expressões. Às vezes, gasta-se mais dinheiro na festa do anúncio do que na finalidade. Aos poucos, o povo, este já acostumado com a situação que lhe aflige, não acha nada de estranho, pois já acostumara com o bode na sua sala.

As promessas vão sendo esquecidas, até que surjam outros problemas idênticos que permitam nova veiculação nos meios de comunicação, todas devidamente suitadas (com a lembrança de fatos importantes anteriores). Neste caso, os jornalistas – estes estranhos serem inconformados – começam a lembrar de que a obra de dragagem dos rios não foram executadas, daí as novas enchentes; os prometidos açudes não foram construídos, ou sequer os projetos elaborados; a reforma agrária realizada. Todo o prometido ficou no completo esquecimento.

Existem os que dizem e provam com as contas feitas, serem os recursos liberados pelo Governo Federal para as organizações do Movimento Sem-terras (que opera de propósito na clandestinidade), mais do que suficientes para solucionar esse grave problema social. Mas, infelizmente, não é isso que acontece, e todos esses recursos são utilizados nas marchas e outras mobilizações do movimento.

É o Governo Federal municiando um segmento político para atuar contra ele próprio (Estado) e a Nação. Esses recursos, entretanto, são os poucos liberados, haja vista o movimento possuir um alto “poder de fogo” e ser uma base política importante para os ocupantes dos cargos federais. O mesmo não acontece junto aos setores produtivos, onde grassam ações de marketing, com Programas de Aceleração de Crescimento (PAC’s) para todos os gostos.

Em cada solenidade feita para anunciar um PAC, fala-se em bilhões que nunca sairão dos cofres públicos, embora sejam de importância fundamental para solucionar as questões a que foram propostas. Até mesmo Itabuna ganhou a mídia ao fazer parte do PAC do Saneamento, no qual o presidente Lula prometeu, pessoalmente ao prefeito Fernando Gomes, R$ 40 milhões para as obras de abastecimento de água do Município. Até agora, nada se sabe da liberação do dinheiro, embora sirva como ferramenta de marketing eleitoral para o PT e PCdoB.

Neste caso, não posso me comportar de acordo com os manuais jornalísticos e dizer: “A Prefeitura de Itabuna recebeu, ontem, os R$ 40 milhões liberados pelo Governo Federal para a construção do sistema de abastecimento de água de Itabuna no Rio Colônia”. Pelo contrário, o argumento terá de ser negativo e desta maneira: “Até agora não se tem notícia da liberação dos recursos da ordem de R$ 40 milhões prometidos pelo presidente Lula ao prefeito Fernando Gomes”.

*Radialista, jornalista e advogado

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